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HAMNET: TERAPIA FAMILIAR, PSICODRAMA E SHAKESPEARE

  • Foto do escritor: Laurice Levy
    Laurice Levy
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Esse filme (verdadeiro ou ficcional) candidato ao Oscar de 2026 tem tudo a ver com nossa prática nos consultórios. Por que isso? Simplesmente porque aborda cenas caras para nós terapeutas familiares. Explico: começa com a ancestralidade presente, com os rituais familiares potentes, com os mandatos, as missões, as lealdades de todo tipo visíveis e invisíveis, com a crença no próprio poder de Agnes (esposa de William) transmitido tri e transgeracionalmente pela sua família de origem (por um lado) e... (por outro lado) vemos os abusos morais, físicos e psicológicos sofridos pelo marido William infligidos pelo próprio pai, demonstrando com clareza o mal que podem fazer alguns pais ao humilhar, submeter e esmagar seu(s) filho(s). Não se trata apenas de dor e do sofrimento físico e mental... Esses comportamentos tóxicos e nocivos podem minar a autoestima e o(s)talento(s) dos filhos. Temos ainda a realização de desejos dos pais, por parte do filho gêmeo que consciente ou inconscientemente atende à mãe salvando sua irmã gêmea à custa da própria vida! Como isso ocorre? Ao nascerem os gêmeos, um menino forte e saudável e uma menina (natimorta) a mãe considerada filha de uma bruxa (como todos dizem) aprendeu os mistérios da natureza, o poder das ervas e... como dissemos acima, herdou a crença em seu poder mágico. E funciona...a mãe "ressuscita" sua filha e a família vive feliz durante um tempo com pai, mãe, filha mais velha e os gêmeos lindos, saudáveis, inteligentes e amigos! Acontece que o tempo passa e a peste toma conta da Inglaterra. A menina é acometida pelo mal. O irmão gêmeo ouvindo seu pai ensinar-lhe sempre que é preciso ter coragem... troca de lugar com a irmã "enganando” a morte e falecendo em seu lugar. Começam então processos profundos inconscientes que trazem resultados nefastos não só para a família, mas e principalmente para o casal. Senão vejamos: com a morte do filho que a mãe não consegue "ressuscitar" sentimentos intensos ocorrem. Primeiro a dor da perda, o luto difícil de elaborar, a ferida narcísica da mãe derrubando uma crença familiar ancestral de ter poder sobre vida e morte através da "bruxaria" e do dom herdado. E... como acontece com muitos de nossos casais, a morte de um filho, as tragédias que a vida traz, às vezes, abalam os alicerces dos casais por mais saudáveis e unidos que sejam. Nesse caso, fica muito claro que o amor que William e Agnes nutrem um pelo outro é forte e profundo a tal ponto que ela entende o talento de William e o ajuda a se "salvar" de seu pai abusador e da micro cidade onde moram para desenvolver seu potencial criativo! Entretanto, é importante notar que por maior que fosse seu amor pelo marido, ela escolheu sua família de origem permanecendo com suas raízes, próxima à natureza com seus filhos, mesmo que distante de seu grande amor. 1 Todavia, com a morte do filho que ela não consegue "salvar" fica em profunda depressão (a ferida narcísica pode fazer isso para além do luto) não conseguindo deixar de culpar seu marido pela sua ausência em casa com ela na pequena cidade que ela escolheu ficar para não se afastar de seu mundo mágico, de seus ancestrais, de seus rituais aprendidos e passados para seus filhos e sofre imaginando que William não se importa com a família, não a ama mais e se diverte em Londres fazendo comédias, ganhando dinheiro e sendo feliz . Qual não foi sua surpresa quando vai assistir à peça que ele apresenta em Londres. Aí temos o momento mais rico, mais emocionante e mais forte do filme. Assistimos ao poder criativo e curativo do teatro, vemos a importância de elaborar o luto se colocando no lugar do outro. É quando o "milagre" opera. Não da bruxa, não das ervas, não da natureza mas sim da elaboração psíquica na tentativa de entender a morte de um filho difícil de assimilar simplesmente! Teatro/Psicodrama, Psicodrama/Teatro na veia com troca de papéis... com interpolação de resistência o filho vivo e o pai morto aparecendo como fantasma na peça, ajuda Agnes a ter empatia pelo seu marido e também conseguindo assimilar toda a extensão do sofrimento de William, da família e não apenas a sua dor. É um momento mágico, lindo que repercute em todos intensamente!!!! Talvez Moreno não gostasse da peça como “conserva cultural", mas certamente adoraria ver a plateia emocionada participando de forma absolutamente espontânea! Viva o teatro, viva a arte, viva o psicodrama e viva a terapia familiar! Que possamos atender nossos casais, famílias e pacientes em nossos consultórios com sensibilidade, empatia, conhecimento e por que não um pouco de arte?

 
 
 

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