Os Bridgertons
- Laurice Levy

- 15 de abr.
- 3 min de leitura
Essa série da Netflix, que nos encantou e distraiu durante a pandemia (iniciada em 2020), com seus figurinos luxuosos, paisagens deslumbrantes e diálogos inteligentes, bem-humorados e “profundos”, apesar da aparente leveza, esteve entre as mais assistidas por muito tempo.
Com a chegada da quarta temporada, algumas pessoas, inclusive eu, não priorizaram acompanhá-la. Entretanto, qual não foi minha surpresa ao perceber que justamente essa temporada tinha tudo a ver com as aulas sobre o amor que a Integrare está disponibilizando.
É uma história que se desenrola entre os anos de 1813 e 1827 (ou seja, no século XIX, muito tempo atrás), trazendo uma “realidade” que deveria existir ontem, hoje e sempre, mas que, infelizmente, não foi o que ocorreu, nem na época da série, nem tampouco no que ainda ocorre hoje, no século XXI.
O que quero dizer com isso é que essa série, retratando o que seria (e não deixa de ser) um reflexo de um momento da história do homem, tem um grande mérito, na minha opinião, de dizer para além do que foi de verdade essa época: o que ela deveria ser!
Ou seja: a série inclui brancos, pretos, amarelos, orientais, ocidentais, feios, bonitos, altos, baixos, gordos, magros... todos estão presentes e todos são valorizados na série. Na quarta temporada, temos até mesmo uma criada sem um antebraço. Inclusão total, diríamos, certo? Errado! Porque, em se tratando de classes sociais, dinastias, nobres e pobres, patrões e empregados, a discriminação, a menos valia e a exclusão são totais, completas e irrestritas.
Por que isso nos interessa aqui e agora? Porque estamos disponibilizando duas aulas sobre o amor: uma sobre a escolha amorosa sob o ponto de vista psicanalítico, ou seja, profundo e inconsciente. E outra do ponto de vista relacional e sistêmico. Temos uma nova Cinderela: uma criada apaixonada pelo nobre mais cobiçado da “estação de bailes para jovens casadoiras”. E… ele também é apaixonado por ela. Muito apaixonado. Só que isso não pode! Casamentos entre “castas” diferentes são impossíveis; são tabu.
É importante lembrarmos agora de Claude Lévi-Strauss, considerado, junto com Sigmund Freud e Albert Einstein, as personalidades mais importantes do século XX por suas contribuições à humanidade. Por que nos lembrarmos dele agora? Porque, na série, entre tantas jovens lindas e nobres moças da alta sociedade, ele se apaixona justamente pelo que é tabu. Lévi-Strauss, em suas pesquisas com diversos tipos de sociedade (esteve inclusive com povos indígenas da Amazônia brasileira), chegou à conclusão de que sempre, em todos os lugares, países, tribos etc., havia algum tabu, ainda que não necessariamente o mesmo entre todos os povos.
Por isso, nossas duas aulas sobre o amor, os preconceitos e a “famídia” (termo cunhado por mim para falar da retroalimentação entre família e mídia) focarão exatamente no porquê e em como acontecem nossas escolhas amorosas, para o bem e para o mal.
Apenas para terminar este texto, quero ressaltar que a “modernidade” da série também aborda a sexualidade, principalmente a feminina, em que o “clímax” ou orgasmo (ou não) da mulher é trazido à cena. Desconhecimento, vergonha, curiosidade e necessidade de entender tudo isso aparecem de forma singela por meio da tentativa da protagonista de compreender algo que ela sequer sabe nomear. Por que isso é moderno? Porque hoje as pessoas pensam que é mais tranquilo para todas as mulheres lidar com essas questões. A clínica e as pesquisas demonstram que não é bem assim. Mas isso ficará para outro texto, e outra aula específica sobre sexualidade.


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